O caminho, o erro e a lição

Rui Bandeira

Há alguns anos, fazia uma viagem por automóvel entre Dubrovnik, na Croácia, e Mostar, na Bósnia-Herzegovina. Receoso do alcance das redes móveis de dados, naquela região, tinha-me preparado, baixando para o meu telemóvel uma aplicação de GPS que funciona com mapas pré-instalados e que, assim, dispensava a necessidade de recurso a redes de dados móveis.

Cruzada a fronteira entre a Croácia e a Bósnia-Herzegovina, o GPS deu indicação para abandonar a estrada principal e tomar uma estrada secundária. Estou habituado a confiar nas indicações do GPS, que muitas vezes nos apontam insuspeitos caminhos mais curtos ou mais rápidos. Assim, não hesitei e abandonei a estrada principal e enveredei pela secundária.

Alguns quilômetros adiante, a estrada cruzou uma aldeia, com ar de semiabandonada. Gente, muito pouca – e só idosos. Mas o que mais chamava a atenção era a visão de muitos edifícios semidestruídos. Não por algum abalo de terra, mas evidenciando marcas de terem sido atingidos por projéteis de artilharia. A guerra nos Balcãs terminara há já mais de vinte anos, em 1995. Mas aquela meio-deserta povoação ainda exibia abundantes e expressivas cicatrizes do que então sofrera com o conflito.

Um pouco mais à frente dessa povoação, a estrada encontrava-se visivelmente deteriorada, esburacada e invadida por vegetação. Mas – pior! – de ambos os lados da vereda (já não era uma estrada…), viam-se, a intervalos regulares, uns “simpáticos” sinais ostentando o conhecido símbolo da caveira entre duas tíbias, acompanhado do aviso de “cuidado – minas”. Foi a altura de reanalisar a decisão de seguir o caminho indicado pelo GPS! Ter-me-ia enganado a colocar o destino? Haveria alguma outra Mostar que não aquela a que me pretendia dirigir? Reintroduzi o destino no GPS, assegurei-me de que só havia uma Mostar no mapa da aplicação. O GPS continuou, imperturbável (como as máquinas são…), a indicar que o melhor percurso era prosseguir em frente. Refleti um pouco. Os locais onde haveria ainda minas estavam devidamente assinalados e situavam-se fora da estrada. Desde que me mantivesse nesta, não deveria haver problema. O caminho estava visivelmente deteriorado, mas, afinal eu já verificara que atravessava uma zona que sofrera uma guerra e ainda não estava recuperada dos estragos. E, afinal, já por várias vezes o GPS me indicara caminhos com troços em mau estado, mas que depois voltavam a ser boas ou razoáveis estradas. Decidi prosseguir.

Porém, trezentos ou quatrocentos metros adiante, subitamente… deixou de haver estrada. Um matagal obstruía completamente o caminho. Sai do carro e fui ver mais de perto. Logo atrás do matagal, e encoberto por este, vi um novo aviso de “cuidado – minas”. Só que agora não estava do lado da estrada. Daí para a frente, a estrada, a vereda, já não era mais do que… um campo de minas!

Claro que fiz inversão de marcha, refiz de volta toda a estrada secundária e, ignorando o GPS, retomei a estrada principal! Uns quilómetros mais à frente, no alto de uma elevação, parei para apreciar a paisagem e tirar umas fotos. Foi então que vi um letreiro, em madeira, virado para o território de onde vinha, escrito em língua local, mas percebendo-se bem que o seu significado era qualquer coisa como: “Está a entrar na Republika Srpska”. Tinha atravessado o território dos independistas sérvios da Bósnia, uma das zonas de maior ferocidade da guerra civil decorrente do desmantelamento da antiga Jugoslávia! A tal estrada secundária que acabou obstruída por um campo de minas atravessava o cerne dessa zona de guerra. Os sérvios da Bósnia foram vencidos nesse conflito e, vinte anos depois, a zona estava abandonada, ou quase, e sem preocupação da sua recuperação – e limpeza de minas! – por parte dos vencedores. Ai dos vencidos…

Mais tarde, procurei apurar o que causara aquela informação errada da aplicação de GPS. Tinha baixado dois mapas diferentes da aplicação: o da Croácia e o da Bósnia-Herzegovina. Como é habitual, cada um dos mapas não se limite às fronteiras do respetivo país e tem ainda alguns quilômetros do território do país vizinho. Só que o mapa da Croácia, na parte do outro lado da fronteira, estava desatualizado mais de vinte anos e indicava ainda os percursos de antes da guerra!. Como só quando terminasse o alcance do mapa da Croácia é que a aplicação passaria a utilizar o (atualizado) mapa da Bósnia-Herzegovina, eu, vindo de Dubrovnik, fui, logo a seguir à fronteira direcionado para uma estrada que, antes da guerra, era o caminho mais curto e mais rápido, mas que já não o era e, em rigor, já não conduzia a nada mais do que a um campo de minas. No sentido inverso (de Mostar para Dubrovnik) não teria recebido essa falsa indicação, pois o mapa deste último país estava atualizado e  indicar-me-ia a atual, segura e bem conservada estrada principal…

Este episódio simboliza as opções que temos de tomar na vida. Temos constantemente de escolher o caminho a seguir. Fazemo-lo em função das informações de que dispomos. Mas nem sempre acertamos. Porque, por mais ponderada que seja a nossa decisão, a informação em que se baseou não estava correta. Quando tal sucede, ainda que não desistamos à primeira dificuldade e perseveremos na nossa convicção, deveremos estar sempre atentos e não cair na obstinação. Quando os dados que formos recolhendo contrariarem inequivocamente os que fundamentaram a decisão, é tempo de arrepiar caminho!

Quando se verifica que se errou, não vale a pena chorar sobre leite derramado. Inverte-se a direção, toma-se outro caminho, e pronto.

Também é escusado – e contraproducente – recriminarmo-nos pelo erro cometido. Ao longo da nossa vida, tomamos centenas de milhar ou milhões de decisões. Não podem ser todas certas, todos temos o nosso quinhão de decisões que se revelam erradas.

Mas o que vale a pena, sempre que concluímos que tomamos uma decisão errada é analisarmos o que causou o nosso erro, o que nos levou à decisão que seria melhor não termos tomado. Só assim conseguimos evitar repetir sucessivamente o mesmo erro ou erros de idêntica natureza. Só assim nos aperfeiçoamos no nosso processo de tomadas de decisão. Por vezes, verificaremos que o erro é de nossa responsabilidade, que não atentamos devidamente nos dados da situação, que erramos no processo lógico de apreciação da mesma. Nalgumas ocasiões, porém, concluiremos que o erro não decorreu de culpa nossa, que resultou de circunstâncias que razoavelmente não poderíamos prever. Nesse caso, deveremos conformar-nos e entender que, por muito cuidadosos que sejamos, não conseguimos prever nem antever tudo. Devemos assim, aceitar humildemente as nossas limitações e aprender que é aconselhável, no nosso processo de tomada de decisão, dar um desconto para a imprevisibilidade, para a nossa incapacidade de tudo prever – aquilo a que um engenheiro meu conhecido dizia que incorporava no cálculo da capacidade das estruturas suportarem forças e tensões e a que chamava “coeficiente de cagaço”…

Somos humanos e, logo, imperfeitos. Aspiramos à perfeição, devemos esforçar-nos por nos aproximar dela o mais possível, mas sabemos que, por mais que nos aproximemos, nunca a alcançaremos.

Constantemente temos de escolher caminhos. Façamos sempre as nossas escolhas com ponderação de todos os elementos disponíveis, para errarmos menos vezes. Mas aceitemos que nos será sempre impossível acertar sempre. Porque, por muito cuidado que tenhamos, há sempre a possibilidade de algo nos escapar, de algo não conseguirmos prever. Por isso, embora nunca devamos desistir à primeira dificuldade, embora devamos persistir perante os obstáculos, nunca devemos ser obstinados, para que possamos reconhecer quando erramos a tempo de arrepiar caminho, remediar o erro e tomar nova direção.

A vida vive-se de muitos caminhos. Às vezes mais rápidos e diretos. De outras mais sinuosos e difíceis. De vez em quando conduzindo a becos sem saída ou levando-nos a desvios indesejados. Nunca nos esqueçamos que embora costumemos dizer que “para a frente é que é o caminho”, também temos de saber rodear obstáculos e, quando necessário, dar meia-volta e procurar outra solução. Mas – sempre! – procurando aprender algo com o que fazemos, sempre buscando tirar algo de bom do que de mau fazemos ou nos sucede. Afinal de contas, ao ter eu decidido seguir por aquela estrada secundária que me acabou por obrigar a voltar para trás, se é certo que perdi algum tempo na minha viagem, também pude viver um pouco de algo que felizmente nunca vivi e que espero nunca viver: estar numa zona que foi de guerra e verificar, ao vivo e a cores, com estes dois que a terra há de comer, a destruição que ela traz. Essa noção não a teria adquirido se não tivesse percorrido aquele caminho…

Rui Bandeira

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