Por que lixeiros e professores ganham menos que artistas e grandes jogadores de futebol

Kevin Currie-Knight
no Instituto Mises do Brasil

O mundo real não funciona exatamente como quer os seus sentimentos e desejos

Por que professores não ganham tanto quanto jogadores de
futebol e apresentadores de televisão?
Por que lixeiros não ganham tanto
quanto professores e artistas?

Exemplos como esse são sempre invocados para mostrar como os mercados são injustos: qualquer sistema que pague a X mais do que paga a Y — sendo que Y parece desempenhar um trabalho muito mais socialmente importante — não pode ser um sistema moral, com boas prioridades.

Mas esta conclusão está errada. Há motivos lógicos que explicam por que financistas, artistas e jogadores de futebol ganham muito mais que lixeiros e professores.

1. Não existe isso de “o real valor” de uma profissão

Há uma ideia intuitiva, mas totalmente errada, de que bens e serviços possuem um valor inerente, um valor intrínseco, o qual pode ser objetivamente determinado por nós.

Intuições como essa acompanham a humanidade há séculos, sendo provavelmente mais bem representada pela teoria do valor-trabalho. Karl Marx (entre outros) acreditava que o valor de um bem ou serviço poderia ser determinado pela quantidade de “trabalho socialmente necessário” para se produzir esse bem ou serviço. Marx também acreditava que era possível determinar objetivamente o “valor de uso” de um produto ou serviço — qual o real valor que aquele bem ou serviço possui em uso; a maneira concreta na qual um bem ou serviço atende às necessidades humanas.

Determine esses valores (valor-trabalho e valor de uso), e será possível descobrir quanto deveriam ganhar os lixeiros e professores e quanto deveriam ganhar os banqueiros, artistas e jogadores de futebol.

Mas a verdadeira ciência econômica nos ensina que isso é impossível de ser feito. Não há uma maneira objetiva de estipular quanto um bem ou serviço deveria valer no mercado. O valor de um bem ou serviço é determinado por um complexo arranjo de fatores (oferta, demanda e a existência de substitutos de igual ou semelhante qualidade). Esses fatores fazem com que seja impossível determinar objetivamente o valor objetivo de um bem ou serviço.

Para determinar quanto algo vale, você tem, antes de tudo, descobrir quanto aquele algo vale para alguém. O valor de um bem ou serviço é amplamente determinado pelo seguinte valor subjetivo: quanto as pessoas estão dispostas a pagar por ele.

Pode parecer lamentável que as pessoas estejam dispostas a pagar mais por X do que por Y, sendo que, para você, Y parece muito mais valioso do que X. Porém, dizer que Y deveria ganhar mais do que X significa dizer a todas as pessoas que os valores e prioridades delas estão errados, e que apenas os seus valores é que estão certos.

2. Pense em termos de substitutos

Se um lixeiro, um professor, um artista e um jogador de futebol saíssem de seus respectivos empregos, qual setor teria mais facilidade para contratar um substituto de qualidade semelhante se o salário oferecido para todas as profissões fosse o mesmo?

Coletar lixo é, sem dúvida nenhuma, um trabalho extremamente importante, mas as qualificações necessárias para se tornar um lixeiro são geralmente mais baixas do que as necessárias para se tornar um artista ou um jogador de futebol. Parcialmente por causa disso, a oferta de candidatos para substituir o lixeiro será maior do que para as outras profissões.

O mesmo raciocínio é válido para professores. A importância da profissão é indiscutível, mas a oferta de mão-de-obra é igualmente grande (para escolas).

Por essa razão (dentre outras), a emissora de televisão certamente terá de ofertar um salário maior do que a empresa de lixo e a escola para atrair bons candidatos. O mesmo vale para o time de futebol.

3. Pense em termos de criação subjetiva de valor

Além da oferta, da demanda e da existência de substitutos, há outro fator crucial: o valor gerado.

O que realmente determina a sua remuneração no mercado não é a beleza da sua profissão, mas sim o valor que você consegue gerar tanto para quem consome seu bem ou serviço quanto para quem paga seu salário.

Um bom professor pode realmente gerar valor para seus alunos e para os pais de seus alunos, mas ele gera valor para uma quantidade pequena de pessoas ao ano. Quantos alunos diferentes ele tem? Provavelmente, não mais do que 200 (um número bem exagerado). Portanto, ele cria valor para 200 pessoas por ano. Pode-se dizer que é uma produtividade extremamente baixa.

Já artistas e jogadores de futebol têm alcance nacional (alguns, mundial). Milhões de pessoas consomem voluntariamente seus serviços, e eles geram retornos — goste você ou não deles — para seus empregadores e patrocinadores semanalmente, que estão satisfeitos em lhes pagar salários milionários. Se não gerassem valor, seria simplesmente impossível terem esses salários.

O professor, por melhor que seja a qualidade do seu serviço, alcança um número limitado de pessoas. Já os artistas e jogadores de futebol alcançam milhões de pessoas. Com um público consumidor maior e com menos concorrência em sua área, é natural que estes últimos ganhem mais que professores.

De novo: o que você pensa sobre essas profissões é imaterial. O fato concreto é que tais pessoas geram grandes retornos para seus empregadores. E geram grandes retornos porque há milhões de pessoas voluntariamente dispostas a consumir seus bens ou serviços.

4. Leve tudo em consideração

Salários, no mercado, não são e não podem ser determinados exclusivamente em termos daquilo que você, que é um mero observador externo, pensa a respeito de uma profissão, e de como você acredita que ela deveria ser remunerada.

Empresas têm de levar em conta o valor que cada empregado gera, a demanda por aquele serviço, a oferta de mão-de-obra de igual qualidade e o custo de se obter e manter bons empregados. Tudo isso se transforma em diferenças salariais.

O salário de uma pessoa irá refletir não apenas o valor que ela gera para seu empregador como também o tanto que suas habilidades particulares e sua experiência podem ser facilmente substituídas pelas de outro candidato àquela vaga de emprego. Ao passo coletar lixo é uma atividade de alto valor social, poucas pessoas irão perceber se um lixeiro for trocado por outro. O mesmo não se aplica para artistas e jogadores de futebol.

Se o sistema de coleta de lixo repentinamente desaparecesse, todos nós estaríamos dispostos a pagar mais para que alguém se livrasse do lixo para nós. Porém, há muitas pessoas e muitas empresas capacitadas e dispostas a fazer isso. A concorrência entre elas levaria a uma redução dos preços.

Já a concorrência para substituir, com a mesma qualidade, artistas e jogadores de futebol não é muito abundante.

Conclusão

O mercado é simplesmente uma arena na qual compradores e vendedores de bens e serviços compram e vendem bens e serviços.

Preços são simplesmente o resultado dessa interação, na qual as pessoas tomam decisões sobre o que estão dispostas vender ou comprar, e por quanto.

Todos nós temos sentimentos e boas intenções sobre o real valor social de determinados empregos. Mas, no mundo real, é impossível querer que lixeiros e professores ganhem mais que artistas e jogadores de futebol. A explicação é puramente econômica.

O que você pensa a respeito de determinadas profissões é totalmente irrelevante perante o que o resto do mundo (mais de 7 bilhões de pessoas), que voluntariamente consome os bens e serviços destas profissões, também pensa sobre ela.

Kevin Currie-Knight
é professor de Educação Especial naEast Carolina University.
Ele também é membro da rede de professores da
Foundation for Economic Education.

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