DESTROÇOS.

Carlos Vereza

Nem na ditadura houve um corte tão abrupto entre gerações como ocorreu nos 13 anos e cinco meses do horror petista. Talvez porque o inimigo fosse comum, visível à maioria da população; talvez porque a asfixia da liberdade mostrava-se na evidência da censura, dos blindados nas ruas, no desaparecimento dos amigos. Era claro-escuro. Sem meios tons.
As pessoas, independente da faixa etária, reuniam-se em volta de idéias, ações temerárias, e …Livros. lia-se. Muito.

Corte.

O monstro repressivo reaparece com sinuosos tentáculos. Esgueira-se em afagos populistas, não mostra as garras; as esconde em subterrâneas maquinações. É cordial. Afável.

Como uma goma viscosa espalha-se, apodera-se das
instituições, desagrega e confunde os ideais. Implanta a novilingua, pasteuriza a cultura, os intelectuais em sua quase maioria tornam-se orgânicos. A igreja ajoelha-se, devota, ao entorpecimento das massas.
O monstro devora a democracia por dentro, divide, separa, esgarça os valores da civilidade, o conceito de família.

Surge, pastoso, um lumpemproletariado a caminho do paraíso. Fulgura, impoluto, o grande Pai que apascenta seu rebanho; patética caricatura pasteurizando o subdesenvolvido inconsciente coletivo tupiniquim.

A anarquia controlada acena aos jovens todo o poder de exercer sua sensualidade livre de parâmetros de gênero ou sexo.

Abre-se um fosso entre ” nós e eles”; entre brancos e negros, entre “ricos” e pobres.

Corte.

A câmera passeia entre destroços.

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