A PARTICIPAÇÃO

tsmaia

Integrei-me como membro passageiro, durante fase da minha vida, a um santuário religioso.

Ele teve o poder de marcar demais o meu modo de viver. Muito mais do que todos os credos e as instituições criadas para preencher o nosso âmago.

Ele me proporcionou uma fantástica afinidade àqueles com quem convivo e uma enorme alegria de existir.

Ele me deu uma excelente orientação espiritual e uma satisfação muito grande, para a minha alma.

Certamente, o que, ali, mais me motivou, para tanto, foi uma pequena e simples explicação, talvez, uma indicação mais exata ou uma definição mais clara do principal preceito cristão que é a altiva lei de toda a nossa existência:
– “Ame ao seu Deus sobre todas as coisas e ao seu próximo como a ti mesmo”. Assim, determina o nosso Supremo Criador, em seu “Livro da Lei”. E, ainda mais, não é bom que o homem se encontre sozinho, em qualquer circunstância. Tanto que na época da criação lhe foi arrancado um pedaço de seu próprio corpo, para produzir sua companheira. Essa laceração, é reproduzida pelos pelicanos, as aves sagradas dos antigos egípcios alimentando a prole.

Para muitos, esses pássaros se tornaram símbolos do sacrifício e da doação representando a eucaristia católica. Christian Rosenkreuz cabalista, alquimista fundou a secular  Ordem Rosacruz simbolizada por uma Rosa branca sobre o centro da Cruz tendo por base os pelicanos trazendo ensinamentos da redenção dos Cristãos. Para Nicola Aslan esse ato de se doar foi também tomado como uma “expressão maçônica espalhada pelo universo”.

Os homens são por natureza doadores e participativos. Sentem alegria em agir, assim. Sabem que surgem, no mundo, por atos de entrega dos progenitores. E para que a existência tenha algum significado oferecem com vivo contentamento as dádivas que recebem dos antepassados.

O fato é que nesse sacrário aceitávamos e correspondíamos com serenidade as atribuições que nos incumbiam de visitar uns aos outros, os enfermos, os idosos, além da prática da abstinência e o exercício da beneficência.

As atuações de caridade, não obstante, estão bem longe de se colocar uma dádiva em chapéu que aparece solto numa calçada, como uma mão que implora. Nem se trata de passar cheques de vulto a entidades filantrópica. Para esses costumes de transferir seus bens que, muita vez, lhes sobram, há empreendedores pródigos que sentem, hoje, como nunca sentiram, facilidades em conseguir o que têm. Eles, embora procurem, ainda não aprenderam ou desenvolveram, com o mesmo desembaraço, como dissipar o que retiveram, nem entenderam bem a lição de estenderem a sua mão, com gratidão, para aqueles que necessitam. Doar, afinal, é uma arte de imenso esmero, muito mais delicada do que ganhar uma partida pocker ou descobrir, quando exploram, na vida, algum tesouro escondido por algum pirata sortudo.

Em todos os cantos, e, ainda mais, em todos os tempos, pode-se notar uma grande ansiedade pelas questões da coletividade dos nossos semelhantes. Afinal, “Homem Algum é uma Ilha”, conforme Thomas Merton e não temos dúvidas de que esse sentimento é real.

Acho incrível aprender, somente agora, a prática de interação do Ubuntu dos habitantes de região histórica, Zulu, do continente africano. A palavra, em si, quer dizer: “Eu sou o que sou, pelo que nós somos”. E quem pode negar? Esse fato tão simples?

Pois bem, a fraternidade humana se consolidou em tempos que não se tem memória. Como se os deuses os ensinaram a utilizar a solidariedade. Quem pode contestar? Esse fato tão distante. Ela está sempre presente, em cada um, e, sempre se desenvolve.

Embora, tão longo seja o caminho e áspera a luta, percebe-se que inegáveis e progressivos benefícios atingem a sociedade, especialmente aquelas pessoas em situação mais exposto a adversidade. Tomo como exemplo que durante a minha existência tive a consciência clara de que as condições desses meus últimos dias são, incontestavelmente, melhores no campo da informação, do transporte, da segurança, da saúde, do saneamento básico, do acesso a bens de consumo, da escolaridade, etc. Tanto que uma pessoa comum vive, aqui e agora, num mundo muito melhor, mais justo e mais digno do que os mais poderosos mandachuvas que imperaram há meio século, atrás. O homem comum consegue viver com mais vantagens a medida que o tempo passa.

A evolução é benigna, boa e suave. Veja bem, essas mudanças a seguir não foram conquistadas, mas brotaram da parte interna mais particular e íntima de todas as pessoas de sua respectiva época. Esses sentimentos estarão, sempre, no âmago do homem. Inegavelmente. Elas não deixaram de ser as motivadoras de uma humanidade sempre e sempre melhor.

– Iluminismo – movimento intelectual que dominou a Europa “no Século XVIII da Filosofia”.


– Revolução Francesa o período de intensa agitação política e social na França, que teve um impacto duradouro em nossa história. de 1789 a 1799.
– A libertação dos países americanos. Durante a primeira metade do século XIX.
– Revolução Industrial com novos processos de manufatura, entre 1760/1840

Claro que existem, na vida, extensos momentos nebulosos, difíceis de vencer. No entanto, a época das vacas magras, sempre foram superadas. Por isso, não podemos aceitar, e nem devemos querer eternizar as péssimas situações. Muitos dirigentes alquebrados insistem em pecar por não reagirem. Nem tomam atitudes cabíveis para debelar o mau. Por quê? Os lances confusos surgem para revelar os verdadeiros líderes sejam de associações de classe, de movimentos humanos, dos povos, etc. Os fortes, os sábios, os que têm fé, os que são atenciosos prevalecem. Só.  Vale lembrar que, no sonho do Faraó as sete vacas magras tomaram as posições das gordas. E que na prática, o rei foi vitorioso, compreendendo uma interpretação simples de José.

Nunca é demais repetir Mateus (6) “Não se preocupem com sua vida, quanto ao que comer ou beber; nem … quanto ao que vestir. Vejam as aves do céu: não semeiam nem colhem nem juntam em celeiros; … o Pai celestial, sempre as alimenta. Vocês não têm mais valor do que elas? “Lavem o rosto e arrumem o cabelo ao jejuar para não parecerem entristecido, pois, na realidade, isto, faz bem ao seu corpo e a oportunidade de se sacrificarem pelo próximo libera a alma. Como os pelicanos, arranquem de si mesmo, pela sobriedade, pela abstinência alimentar, pelo jejum e doem ao que necessita

É uma gota d’água no meio de um deserto. Certamente.

As comunidades indígenas, na região chilena do Atacama, o deserto mais árido do mundo, recolhem as gotas d’água, do precioso líquido de sua camanchaca, a névoa costeira que cobre a região, durante as madrugadas de céus límpidos. Os “coletores de névoa”, telas de polipropileno, instaladas entre dois postes condensam em sua malha, inumeráveis gotículas que se deslizam para os recipientes localizados, abaixo. Assim, proporcionam verdadeiros milagres com a água obtida. Em outros pontos da terra, com criatividade parecida, fala-se até em reflorestamento.

Quanto, mas, quanto benefício obteríamos se as instituições que se professam caridosas fossem coletoras dessa tênue nevoa de caridade que podemos fazer com o jejum de seus membros. De apenas um dia a cada mês. Ou a cada quinzena. Certamente surtiria mais vantagens dos que as torrenciais torneiras benemerentes que despejam, por aí, um desperdício incontido.

Não obstante, a doação incomparável é a que diz respeito a do conhecimento. Aquela que cultiva a criatividade. A melhor coisa que podemos fazer para ajudar qualquer pessoa é instrui-la. Como diz Lao-Tsé: “Se deres um peixe a um homem faminto ele se alimentará por um dia. Se o ensinares a pescar ele se alimentará por toda a vida”. É muito importante doar conhecimento, transmitir a cada um a capacidade de superar seus problemas. É experiência que se propaga. Pode ser retransmitida e atinge, facilmente, novos necessitados como nenhum outro tipo de doação.

Em tudo aplicamos o nosso jeitinho. Temos o poder de criar. Sim! Ainda mais, caridade não tem tamanho. Não temos como a avaliar, nem a comparar, nem a medir, por se tratar de uma prerrogativa de Deus. Não nos compete como homens julgar o valor com que ela pode se revestir. Apenas, não podemos negar, que é muito maior uma dádiva de amor gerada com o nosso sacrifício do que aquela que se constitui uma sobra do que obtemos por riquezas casualmente conquistada. Se não temos no momento, algo para doar ao nosso próximo necessitado, jejuemos nós e façamos a oferta do valor dos alimentos da nossa abstinência de um ou dois dias por mês. Ele se reveste em objeto sagrado e abençoado. Para o nosso bem, principalmente, sem contar a gratidão imensa provocada no que recebe. Ela é uma oração. Uma caridade. Um objeto de amor e de imenso valor. Não se preocupe, no fim dá certo!

 

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