Quem foi André Michel de Ramsay?

“André Michel de Ramsay, escocês de Ayr, plebeu com fumaças de aristocracia, aportou na França depois de alijado da Maçonaria de sua pátria, por insistir em criar graus cavalheirescos. Na França, satisfez a sua ânsia de nobreza, ao ser recebido como cavaleiro da Ordem de São Lázaro (Chévalier de Saint Lazare). E tão agradecido ficou que produziu em 1737, um discurso onde pretendia aristocratizar a Maçonaria, ligando-a aos nobres das Cruzadas, o que é pura lenda. Ele foi proibido de pronunciar o discurso, por ordem do cardeal Fleury (Andre Hercule de Fleury), ministro de Luis XV e dono do poder da época na França, como ocorreu com outros cardeais (Richelieu, Mazzarino): mas o texto acabou sendo publicado no ano seguinte e influenciaria as tentativas posteriores de criação de Altos Graus. Para alguns autores, o discurso foi de tendência a uma profunda reforma institucional na Maçonaria, o ponto de partida para a adoção do sistema dos Altos Graus, além de ser uma verdadeira carta a um código geral de pensamento. Outros discordam não lhe reconhecendo nenhuma influência importante, e não vendo nele mais do que um apelo a lendas, uma paixão pelos títulos nobiliárquicos e uma pretensa origem dos franco-maçons nos cruzados.” (Trecho do artigo “O Primeiro Supremo Conselho do Mundo” de autoria do Irmão José Castellani)

Introdução

Lendas e invencionices sobre o passado da Maçonaria, ainda que, em grande parte vêm sendo desmitificadas pelos pesquisadores seriamente comprometidos com a verdade, ainda atraem incautos, e que, indiretamente se encarregam de propagá-las. O fato é que muitas das invenções circulam na Internet, e sendo assim, o perigo de se multiplicarem é muito maior que outro meio qualquer, por fatores que agora não vêm ao caso.

Quando se fala sobre o Templo de Salomão e sobre os Templários na sua relação com a Maçonaria, e aqui estes assuntos são tomados como exemplos aleatórios, (embora existam aqueles que encontrem conexões), já que há outros, parece que abundam teorias, e algumas das mais fantasiosas possíveis. A verdade é que não é nem um pouco fácil “separar o joio do trigo”, separar o que é lenda, o que é invenção, o que é enxerto ou o que é “achismo”, como dizia o Irmão Castellani, e ficar com a história, pois, mesmo entre Maçons há aqueles que não simpatizam muito com a última opção. Há uma relutância, quem sabe até um descaso, há um desdém por parte de alguns, para lidar com fatos, com verdades históricas. Pode residir aí a simples falta do gostar de estudar, pode ser que determinadas versões sejam mais bonitas, mais interessantes… Ou ainda, há aqueles que preferem o “sempre foi assim”, e os que um dia ouviram algo do tipo “as origens da Maçonaria se perdem nas brumas do passado”, aceitando isso como o que há de melhor.

É de L. P. Hartley a seguinte citação: “O passado é uma terra estrangeira.” É de Voltaire a frase: “Todo o nosso passado nada mais é que ficção aceita.”

Alguns personagens também estão expostos ao mesmo processo: os seus erros são minimizados, as suas qualidades exaltadas ao extremo, o que daria no mesmo dizer que, em essência, parte da sua vida é ficção aceita também.

Não sei se estou me fazendo entender, mas com o intuito de ilustrar da melhor forma possível para o leitor o que seria a minha linha de raciocínio, recorro a uma história interessante, que faz parte do livro “Os Judeus e as Palavras”, de Amóz Oz e Fania Oz-Salzberger, e que acredito, possa por si só, trazer este entendimento pretendido e fundamental para o que virá depois. Eis o trecho:

“Desnecessário dizer que não podemos saber – especialmente em relação aos tempos antigos – quem foi ‘figura histórica’ e quem foi mito. Não podemos saber quem ‘realmente’ fez ou escreveu o que se alega que tenha feito ou escrito. Temos curiosidade a respeito, mas não importa realmente. Verdade histórica não é verdade arqueológica, disse Ahad Há’am. A história pode transportar uma verdade genuína por meio de figuras ficcionais, alegorias e mitos. E um talmudista do século IV disse que o Jó bíblico nunca existiu, que foi uma fábula. Outros sábios argumentaram contra ele, mas a teoria do Jó ficcional foi devidamente incluída no Talmude. Por que não foi varrida da lousa como blasfema ou indigna? Porque – ou assim gostaríamos de pensar – o Talmude antecipava e aceitava o nosso ponto: fábulas podem contar uma verdade. Ficção não é um gracejo. Jó existiu, tenha ou não existido ‘de verdade’. Ele existe nas mentes de incontáveis leitores, que o discutiram e debateram sobre ele por milênios. Jó, como Macbeth e Ivan Karamazov, existe como verdade textual.” 

O personagem que escolhi para contar aqui a sua história, a partir de agora, chama-se Andrew Michael Ramsay, ou o “Cavaleiro de Ramsay”, como é considerado por muitos, personagem um tanto quanto polêmico, principalmente no concernente às suas argumentações defendidas em seu famoso discurso. Alvo de severas críticas, o que não impede de que o achemos fascinante em alguns momentos da sua trajetória, algumas biografias o enaltecem, outras nem tanto, e além do mais, sem dúvida, ele imprimiu um novo rumo à Maçonaria. Pelas palavras de Lantoine, ao descrevê-lo, já podemos ter uma noção: “o mais nebuloso ou o mais iluminado preceptor… que se possa imaginar.” (Girardi, pág. 528, 2008)

Comentários

Para a feitura do presente trabalho, vários fragmentos da biografia de Ramsay irão sendo expostos concomitantemente, pois, são produtos da lavra de diversos autores, assim como suas opiniões, sejam elas com as tendências prós ou contras, para que o leitor possa pesar e sopesar. Eu vou contar com a bondade dos Irmãos que me leem, para que independente do fato de ser simpático a uma ou outra corrente, até o final, pelo menos, leiam com total imparcialidade as opiniões dos autores citados. Leiam como quem absorveu integralmente as lições contidas no texto brilhante de Amós Oz, leiam com a paciência de Jó, tenha esse personagem bíblico, existido ou não, e depois sim, tirem suas conclusões sobre o Cavaleiro de Ramsay.

Ramsay: uma biografia

Escolhi a biografia de Ramsay que está inserida no “Dicionário Maçônico”, do Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo, pois, ela reúne três pontos fundamentais para o entendimento melhor do biografado, assim como, no que concerne as suas afirmações mais impactantes, todas presentes nesta biografia, e o que nem todas as biografias do mesmo conseguem reunir: a sua teoria sobre as origens da maçonaria (os cruzados e a afinidade com os Antigos Mistérios), a introdução da lenda do 3º Grau e a introdução dos Altos Graus. Como já foi aventado, tudo o que tem se atribuído a Ramsay, por incrível que pareça, é motivo de polêmica para uns, mas, de pleno aceite para outros. Também, não me sentiria muito à vontade sem transcrevê-la do citado clássico, na íntegra, portanto, vamos ao verbete e ao seu texto: (As partes do trecho que estão assinaladas em negrito, além de julgá-las fundamentais às finalidades deste trabalho, irão facilitar também para quando se julgue necessário a introdução de um comentário, ou opiniões de outros autores, estas serão intercaladas entre um item e outro, o que é o mesmo que dizer ao final de cada trecho onde houver as partes em negrito, além de que, isso vai concentrar o máximo de cada assunto.) Desnecessário dizer que o Irmão Joaquim Gervásio de Figueiredo já faz uma biografia comentada, o que auxilia bastante.

Fonte: –

Quem foi André Michel de Ramsay?

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