A Simbologia da Franco-Maçonaria

Autor: Francisco Ariza.
Tradução: Sérgio Koury Jerez.
10 DE JANEIRO DE 2018 

 

Neste trabalho dedicado à simbologia universal, não poderiam faltar algumas reflexões sobre o importante simbolismo da Maçonaria, que representa, junto à tradição Hermética–Alquímica, a única via iniciática não religiosa que sobrevive ainda na Europa e sua área de influência cultural. E isto é assim embora, na atualidade, muitos maçons não conheçam – ou conheçam de forma muito limitada – o caráter simbólico e iniciático de sua Ordem. Alguns chegam inclusive a negar esse aspecto essencial da maçonaria, crendo que esta só persegue fins sociais e filantrópicos. Há outros, inclusive, que só vêm na riqueza simbólica da Maçonaria uma fonte inesgotável onde alimentar suas próprias fantasias “ocultistas”, tão em moda hoje em dia. Sem dúvida, esta suplantação dos verdadeiros fins da Maçonaria e, por conseguinte, a infiltração das “ideias” profanas, só podia acontecer numa época que, como a nossa, vive imersa na mais profunda obscuridade intelectual e espiritual.

Devemos esclarecer que aqui se vai falar da Maçonaria tradicional, ou seja, daquela que mantém vivos e permanentes, através dos símbolos, dos ritos e dos mitos, os laços com as realidades cosmogônicas e metafísicas emanadas da Grande Tradição Primordial, da qual a Maçonaria é (em verdade) uma ramificação. No nosso entender, e considerada desta maneira, a Maçonaria, igual a qualquer outra organização tradicional, oferece ao homem caído e ignorante os elementos necessários para levar a cabo sua própria regeneração e evolução espiritual. A estrutura simbólica e ritual da Maçonaria reconhece numerosas heranças procedentes das diversas tradições que foram se sucedendo no Ocidente durante, pelo menos, os últimos dois mil anos. E este feito, longe de aparecer como um mero sincretismo, revela nesta Tradição uma vitalidade e uma capacidade de síntese e de adaptação doutrinal que lhe valeu o nome de “arca tradicional dos símbolos”.

Todas essas heranças foram se integrando com o transcorrer do tempo no universo simbólico da Maçonaria, amoldando-se a sua própria idiossincrasia. Procedendo de uma tradição de construtores, não deve parecer estranho que a Maçonaria desempenhe a função de arca receptora, pois precisamente a construção ou edificação não tem outra função além de pôr “a coberto” ou “ao abrigo” da intempérie ou inclemência do tempo; Mas, analogamente, quando se entende a construção como algo sagrado — e este é o caso — está claro que esta não faz outra coisa senão proteger, e separar, do mundo profano (as trevas exteriores) tudo aquilo que corresponde ao domínio estritamente espiritual e metafísico. Por outro lado, este é precisamente o papel dos símbolos que aludem às ideias de receptividade e concentração, como a própria arca, o cálice, a caverna ou o templo. Sendo, como dissemos, uma via iniciática de origens artesanais, a Maçonaria teve uma especial sensibilidade com relação a todas as correntes tradicionais com as quais entrou em contato.

Assim, dentre essas correntes merecem destaque, além do Hermetismo, as que procedem do Cristianismo, do Judaísmo e da antiga tradição grego–romana, e, mais concretamente, do Pitagorismo. Também poderíamos mencionar a ainda mais antiga tradição egípcia, sobretudo no que se refere aos símbolos cosmogônicos relacionados com a construção, pois, como é sabido, o antigo Egito é, na realidade, um dos centros sagrados de onde surgiu grande parte do saber que contribuiu para dar forma, com sua influência sobre os filósofos gregos, à concepção do mundo que é própria da cultura ocidental. De todo modo, a herança egípcia é transmitida à Maçonaria através, fundamentalmente, da Alquimia hermética e do Pitagorismo. Não obstante, disso que dissemos não se deve concluir que a Maçonaria seja o “resultado” da confluência de todas essas tradições. Se fosse assim, a Maçonaria viria a ser uma espécie de colagem ou museu arqueológico onde teriam abrigo todas as relíquias do passado encontradas aqui e acolá, e catalogadas segundo sua respectiva antiguidade.

Evidentemente não é isso que queremos dizer quando falamos da herança multissecular recebida pela Maçonaria. Cada tradição é legitimada e conformada por uma “revelação” de ordem divina acontecida em um tempo mítico, “a-histórico” e atemporal1. Tal revelação é “única” para cada forma tradicional que se constitui a partir dela, dando-lhe seu “selo” ou “marca” particular, sua estrutura, e, portanto, uma função e um destino a cumprir no cenário do tempo da história.

Ocorre, por quaisquer circunstâncias, que uma tradição receba de outra (ou outras) determinadas influências por contato ou similitude, o que muitas vezes foi inevitável e até necessário. Mas de nenhum modo isto quer dizer que uma tradição se “transforme” em outra, pois, como ocorre com qualquer ser vivo, cada uma compreende um nascimento, um desenvolvimento, uma maturidade, e finalmente, uma morte. Aquilo que se convencionou chamar de “Unidade Transcendente das Tradições”, é bem diferente de uma simples “uniformidade”. Significa, fundamentalmente, que todas – e cada uma delas – procede de uma fonte única (a Tradição Primordial), que se manifesta não na forma ou roupagem que possam adotar por circunstâncias de tempo e de lugar, mas, precisamente, no que constitui a “sabedoria perene” contida no núcleo mais interno e central de cada tradição. O que ocorre com respeito à Maçonaria é que esta não possui um caráter religioso, o que tornou possível sua adaptação a todas as tradições, religiosas ou não, com as quais se relacionou ao longo da história.

A simbologia iniciática, demonstrada na arte da construção, entre outras coisas lhe serviu de cobertura protetora, ao mesmo tempo em que lhe permitiu amoldar-se a qualquer “dogma” religioso ou exotérico sem entrar em conflito com ele. Temos um exemplo disso nas relações que, durante toda a Idade Média ocidental, a Maçonaria manteve com o poder eclesiástico e com as diversas organizações iniciáticas do esoterismo cristão. Por outro lado, se a Maçonaria, com esse espírito de fraternidade e tolerância que a caracteriza, não houvesse acolhido em seu seio essas diversas heranças, estas, com toda segurança se haveriam perdido definitivamente. E foi possivelmente essa capacidade receptora que contribuiu para fomentar essa ilusão de sincretismo que erroneamente alguns lhe atribuem. É precisamente o contrário, pois a Maçonaria ao “reunir o disperso” não fez nada além de conservar em suas estruturas simbólico–ritualísticas a “memória” dessas múltiplas heranças, cumprindo com isso um papel “totalizador” que tem sua razão de ser (e uma razão de ser profunda) neste final de ciclo que estamos vivendo. Neste sentido, e da mesma forma que na Arca de Noé foram guardadas, para que não perecessem, todas as “espécies” que deviam ser conservadas durante o cataclismo ocorrido entre dois períodos cíclicos, a “arca” maçônica também acolhe tudo o que de válido deve conservar-se – até que, por sua vez, o ciclo presente termine – e que constituirá os “germens” espirituais que se desenvolverão durante o transcurso do futuro ciclo.

Particularmente, esta função recapituladora assumida pela Maçonaria tradicional faz pensar que ela subsistirá até a consumação do ciclo, o que, por outro lado, e como assinala um autor maçom, “… está expresso simbolicamente pela fórmula ritual segundo a qual a Loja de São João está no vale de Josafá”, que, acrescentamos, é onde simbolicamente terá lugar o que no Cristianismo se denomina o “Juízo Final”2. No mesmo sentido, também se diz que a Loja maçônica permanece… “na mais alta das montanhas e no mais profundo dos vales”, aludindo com isso ao começo do ciclo (quando o Paraíso se encontrava no topo da montanha do Purgatório) e ao seu final (quando a Verdade do conhecimento, representada pelo estado edênico, “fechando-se” em si mesma, se fez invisível à maioria dos homens, ocultando-se no “mundo subterrâneo”). Há que se dizer, para completar esta simbologia cíclica, que o vale corresponde à caverna, que por estar no interior da montanha se situa por sobre um mesmo eixo que conecta a cúspide de uma com a base da outra, unindo desta maneira o mais “alto” (ou princípio) com o mais “baixo” (ou fim).

Dito isso, que cremos foi necessário para aclarar certas confusões que existem em torno da Maçonaria, tentaremos explicar, a seguir, algumas dessas heranças simbólicas que esta Ordem recebeu de outras formas tradicionais, ainda existentes ou já desaparecidas.

Do Hermetismo a Maçonaria recolhe, em parte, a riqueza da simbologia alquímica, que inclui os ensinamentos e vivências dos processos de transmutação psicológica que levam do estado profano à realização espiritual.

O simbolismo dos elementos, relacionado com as energias purificadoras da natureza, é de suma importância no rito de iniciação maçônica. Neste sentido, a “Câmara de Reflexão” maçônica vem a ser o mesmo, e cumpre idêntica função simbólica que o athanor hermético: um espaço fechado e íntimo onde se produzem as mudanças de estados regenerativos exemplificados pela gradual “sutilização” da matéria densa e caótica do composto alquímico. Igualmente, os diversos objetos simbólicos que se encontram na “Câmara de Reflexão” são quase todos de origem alquímica e hermética, como por exemplo, as três taças contendo enxofre, mercúrio e sal, sem esquecer das siglas V.I.T.R.I.O.L.3 e a bandeirola com as palavras “Vigilância e Perseverança”, as quais se referem ao estado de vigília permanente e paciência de que deve armar-se o alquimista em suas operações.

Por outro lado, existem interessantíssimas analogias entre o processo de transmutação da “matéria caótica” alquímica e o desbastar da “pedra bruta” na Maçonaria, pelo que se pode fazer uma transposição, totalmente coerente entre o simbolismo alquímico e o simbolismo construtivo e arquitetônico. Dessa maneira, a iniciação hermético –alquímica está presente por igual nos três graus maçônicos (de aprendiz, companheiro e mestre), que reproduzem as três etapas da “Grande Obra”, que incluem uma morte, um renascimento e uma ressurreição, respectivamente. Enfim, as leis herméticas das correspondências e analogias entre o macro e o microcosmo estão resumidas e sintetizadas no esquema geral do templo ou Loja maçônica, verdadeira imagem simbólica do mundo.

Se a Tradição hermética deixou seus vestígios na Maçonaria, os deixados pelo Pitagorismo não são menos importantes, e até poderíamos dizer que é, junto com o judaico–cristianismo, um dos mais significativos, até o ponto de não ser possível compreender o que é a Maçonaria sem essa referência pitagórica. Numerosos símbolos maçônicos denotam sua procedência pitagórica, ou, pelo menos, mostram uma identidade palpável com alguns dos símbolos mais importantes da confraria fundada pelo mestre de Samos. É o caso, por exemplo, da conhecida “estrela pentagramática” ou pentalfa, de suma importância na simbologia do grau de companheiro (onde recebe o nome de “estrela flamejante”), e que os pitagóricos consideravam como seu signo de reconhecimento e um emblema do homem plenamente regenerado. Mas é na aritmética sagrada, ou seja, na simbologia dos números em sua vertente cosmogônica e metafísica, onde se observa mais claramente a presença do pitagorismo na Maçonaria.

Ambas as tradições dão ênfase ao sentido qualitativo dos números, por sua vez estreitamente vinculado ao simbolismo geométrico, que também, por seu lado, está diretamente relacionado com a construção do templo exterior e do templo interior. Neste sentido, deve ser notado que, no frontão da Academia de Atenas, Platão fez gravar uma inscrição que rezava: “Que ninguém entre aqui se não é geômetra”, sentença que unanimemente se atribui aos pitagóricos, e que poderia perfeitamente estar gravada no pórtico de entrada da Loja maçônica. Do mesmo modo, a Unidade ou Mônada divina estava simbolizada entre os pitagóricos por Apolo, o deus geômetra primordial que, mediante a “lei invariável do número” que extrai dos acordes musicais de sua lira, estabelece o modelo ou protótipo pelo qual se rege a harmonia da vida universal.

E não é, no fundo, o Grande Arquiteto maçônico, que com o esquadro e o compasso determina a estrutura e os limites do céu e da terra, da mesma forma que o Apolo pitagórico?

No que se refere ao Cristianismo, é indubitável que dele procedem numerosos e importantes elementos doutrinais integrados na simbologia e no ritual maçônicos. Esta integração se viu favorecida pela convivência que, durante praticamente todo o período Medieval, os grêmios de construtores mantiveram com as ordens monásticas e de cavalaria, especialmente a dos templários. Questionar ou desconhecer este aspecto cristão tanto da antiga como da atual Maçonaria, é privá-la de uma parte essencial de sua própria identidade tradicional, além de demonstrar com isso uma ignorância completa sobre o esoterismo cristão, que é, precisamente, o que, em grande medida, foi absorvido pela Ordem maçônica. Só um dado, porém sumamente significativo: os santos padroeiros e protetores da Maçonaria são os dois São João, o Batista e o Evangelista, e como já se disse a Loja é denominada “Loja de São João”.

À presença hermética, pitagórica e cristã, há que se acrescentar a da tradição judaica, surgida do tronco de Abraão da mesma forma que o Cristianismo e o Islã. A tradição hebraica transmitiu à Maçonaria fundamentalmente os mistérios relativos às “palavras de passe” e às “palavras sagradas”, todas elas procedentes do Antigo Testamento, se bem, é verdade, que também se encontram palavras e nomes sagrados de origem cristã, concretamente nos que se denominam os “altos graus” maçônicos. De certo modo, na Maçonaria confluem a Antiga Aliança e a Nova Aliança formadoras do judaico–cristianismo, que se constituiu em uma só tradição durante os períodos mais florescentes da Idade Média. Não é exagero afirmar que essa constituição foi possível graças à própria Maçonaria operativa, que neste sentido desempenhou um autêntico trabalho de “ponte”, muito especialmente no que se refere ao âmbito da construção e da arquitetura. Como mais adiante teremos ocasião de assinalar, as palavras de passagem e as palavras sagradas se relacionam com a busca da “Palavra perdida”, busca que concentra em grande parte o trabalho de investigação simbólica do maçom. Igualmente, a concepção simbólica da Loja – como o templo cristão –, está baseada no desenho geométrico do templo de Jerusalém (ou de Salomão), e o arquiteto que dirigiu as obras deste templo, o mestre Hiram, passa a ser um dos míticos e legendários fundadores da Maçonaria4.

Depois deste quadro geral, no qual muito superficialmente apontamos quais, a nosso juízo, são as mais significativas influências tradicionais presentes na Maçonaria, vamos ver na continuação, sobre o plano da história, de que forma essas influências penetraram e se converteram em parte constitutiva desta tradição. E, se bem que não tratemos aqui especificamente da história da Maçonaria, pensamos que trazer à memória certos feitos históricos talvez pudesse fazer-nos compreender em maior profundidade alguns símbolos maçônicos que, de fato, se forjaram à luz dessas múltiplas heranças. Além disso, a história é também uma simbologia sagrada ligada ao porvir cíclico e ao destino dos homens e das civilizações.

Uma História Simbólica

Devemos nos situar, pois, nessa época crucial da história da Europa e do Ocidente que foi, sem dúvida, a Idade Média. Ali encontramos nos grêmios, ou agrupamentos de construtores conhecidos como os free–masons ou franc–maçons, que por estarem isentos do imposto alfandegário podiam viajar e deslocar-se livremente por todos os países da cristandade. Dessa liberdade de movimento é que lhes era dado, em parte, o nome de “franc– maçons”, que quer dizer “pedreiros, ou construtores, livres”.

Dissemos “em parte”, porque, como acertadamente escreve Christian Jacq: O “franc-maçon” é o escultor da pedra franca, ou seja, da pedra que pode ser talhada e esculpida… O “maçom franco” é, sobretudo, o artesão mais hábil e mais competente, o homem que é livre de espírito e que se libera da matéria por sua arte… Em numerosos textos medievais, o franco–maçom é oposto ao simples pedreiro, que não conhecia a utilização prática e esotérica do compasso, do esquadro e da régua.

Assim, pois, esses “maçons francos” possuíam seus mistérios iniciáticos e suas técnicas do ofício relacionadas com a construção, e expressavam na ordem concreta das coisas a realização efetiva desses mistérios. Em grande medida, os maçons operativos haviam herdado essas técnicas diretamente dos Collegia Fabrorumromanos, ou seja, dos agrupamentos de construtores e artesãos cujas origens remontavam ao legendário rei Numa. Assim como ocorreu com a Maçonaria, os Collegia Fabrorum também recolheram a herança simbólica de tradições desaparecidas, a mais notável das quais foi a tradição Etrusca, cuja cosmologia passou ao Império Romano através desses colégios. É interessante ressaltar que os Collegia Fabrorum veneravam muito especialmente ao deus Jano Bifronte, chamado assim porque possuía dois rostos, um que olhava para a esquerda (ao Ocidente, ou lado da escuridão), e outro para a direita (ao Oriente, ou lado da luz), abrangendo dessa maneira o mundo inteiro.

Se bem que o simbolismo pertencente a esta divindade romana seja bastante complexo, sabe-se com segurança que estava relacionada com os mistérios iniciáticos, concretamente com os ritos de “passagem” ou de “trânsito”. Na Maçonaria operativa medieval esses mesmos atributos passaram a fazer parte dos dois São João, cujo nome é idêntico ao de Jano. Mais ainda: através dos Collegia romanos, a Maçonaria recebeu (entre outras fontes de procedências diversas) a cosmologia dos pitagóricos, baseada, como já se mencionou, nas correspondências simbólicas dos números e da geometria, ciências e artes sagradas que precisamente têm na arquitetura suas aplicações mais perfeitas. Entre os personagens conhecidos que facilitaram esse trabalho de transmissão da cosmologia pitagórica (e também platônica) ao período Medieval, merece destaque, no século VII, Boecio, chamado o “último dos romanos” e autor da Consolação da Filosofia. Os estudos de Boecio sobre astronomia, geometria, aritmética e música, foram realmente decisivos para o enriquecimento das “sete artes liberais”, divididas no trivium e no quadrivium, de suma importância nos ensinamentos da maçonaria operativa.

Por outro lado, a filosofia de Boecio influenciou notoriamente a literatura e o pensamento esotérico da Maçonaria tradicional dos séculos XVIII e XIX, por exemplo, em autores como Louis Claude de Saint Martin e José de Maistre. Seguindo com esta ordem de ideias, existiu uma lenda difundida entre os maçons de língua inglesa, segundo a qual um tal Peter Grower, originário da Grécia, trouxe aos países anglo-saxões determinados conhecimentos relativos à arte da construção. Alguns autores, entre eles René Guénon, afirmam que este personagem, Peter Grower, não era senão Pitágoras, ou melhor, a ciência dos números e a geometria que através dos pitagóricos foram introduzidas nas ilhas britânicas, ao mesmo tempo em que em todo o continente.

No mundo da Tradição muitas vezes os nomes das pessoas, sejam históricas ou lendárias, designam, mais que os próprios personagens, os conhecimentos que eles transmitiram e que, com frequência, se transmitiram por meio das escolas ou confrarias que fundaram. É o que, de certo modo, ocorre com o matemático grego Euclides, que é mencionado nos “Antigos Deveres” – Old Charges – (que representam uma série de documentos e escritos da Maçonaria operativa onde foram definidos alguns eventos relacionados com a história sagrada da Ordem maçônica). Em um desses documentos, o manuscrito Regius, se faz alusão a Euclides como o “pai” da geometria, enfatizando-se que esta não designa senão a própria Maçonaria. Em outros manuscritos se diz que o mesmo Euclides foi discípulo de Abraão, o que, do ponto de vista da cronologia histórica é totalmente sem nexo, pois, como se sabe, Euclides viveu no Egito durante o século III a. C., e Abraão aproximadamente dois mil anos antes. Mas, tendo em conta de que se trata de história sagrada, e não simplesmente profana, o que em verdade se quer dizer com esta lenda é que Euclides foi o discípulo que recebeu o saber que o Patriarca encarnava, que era em si o monoteísmo hebraico em sua expressão cosmogônica e metafísica5.

Resumindo, em realidade tudo isso se refere a uma transmissão de caráter sagrado efetuada da tradição judia para a Ordem maçônica, o que equivale a uma autêntica “paternidade espiritual”. Seja como for, o legado da cosmologia greco–romana unida à espiritualidade cristã, deu como resultado a criação da catedral gótica, edificada pelos grêmios de construtores. Uma catedral, ou um monastério, é um compêndio de sabedoria; Nela, gravada na pedra, se materializam todas as ciências e todas as artes, assim como os diferentes episódios bíblicos que fazem a história da tradição judaico–cristã. Ali aparecem os diversos reinos da natureza, o mineral, o vegetal, o animal e o humano, da mesma forma que as hierarquias angelicais que circundam o trono onde mora a deidade.

Tudo isso converte a catedral, em um livro de imagens e símbolos herméticos reveladores da estrutura sutil e espiritual do cosmos. Essas colunas que se elevam verticalmente até outro espaço, unindo a parte inferior (a terra) à superior (o céu), esses arcos e abobadas que se assemelham a cristalizações dos movimentos circulares gerados pelos astros, essa luz solar que ao penetrar através do colorido policromado dos vitrais se transforma em um fogo sutil que a tudo inunda; todo isso, dizemos, nos permite reconhecer a existência de um espaço e um tempo sagrados e significativos. Este conjunto de equilíbrios, módulos e formas harmoniosas (que por refletir a Beleza da inteligência divina se constitui em “resplendor do verdadeiro”, como diria Platão) se gera a partir de um ponto central, que, por sua vez, é o “traço” de um eixo vertical invisível, mas cuja presença é onipresente em todo o templo.

Este ponto central não é senão o “nó vital” que promove a coesão do edifício inteiro, e para onde conflui e se expande, como se tratasse de uma respiração, toda a estrutura do mesmo. Tal “nó vital” era bem conhecido pelos mestres de obra, que viam seu reflexo no umbigo, sede simbólica do “centro vital” do templo–corpo humano. Essa estrutura do cosmos–catedral, imperceptível aos sentidos comuns, se percebe graças à intuição intelectual e às formas visíveis do céu e da terra, que estão simbolizadas pela abóboda e pela base quadrangular ou retangular, respectivamente. Daí que a Maçonaria conceba o cosmos como uma obra arquitetônica e, a divindade, como o Grande Arquiteto do Universo, também chamada Espírito da Construção Universal em outras tradições.

Perto das catedrais em construção se encontravam as oficinas ou lojas, nas quais se traçavam e desenhavam os planos, se repartiam as obrigações, se falava dos detalhes da obra, e se celebravam os ritos e cerimônias de iniciação. Estas oficinas eram autênticos centros de ensino tradicional onde, além das técnicas do ofício, se transmitiam os conhecimentos cosmogônicos. Realmente, nas oficinas maçônicas se conjugavam a arte e a ciência, a prática e a teoria, seguindo assim o famoso adágio escolástico segundo o qual a “ciência sem arte não é nada”.

Cada Loja ou oficina estava sob a autoridade de um mestre arquiteto, que tinha a suas ordens os oficiais companheiros (divididos em sub graus e funções), que por seu lado vigiavam e dirigiam os trabalhos dos aprendizes. Esta estrutura ternária e hierarquizada de aprendiz, companheiro e mestre se encontra com os mesmos ou diferentes nomes unanimemente repartida em todas as organizações iniciáticas e esotéricas, pois tal hierarquia expressa um modelo do processo iniciático íntegro, que reproduz exatamente o desenvolvimento cosmogônico das “trevas à luz”, do “caos à ordem”.

Um dos poucos testemunhos que se conservaram dos desenhos realizados pelos maçons operativos é o álbum do arquiteto francês Villard de Honnecourt, ao qual pertence também o traçado de um labirinto, cuja forma é idêntica à de todos os labirintos iniciáticos: uma série de dobras concêntricas que conduzem, depois de um longo trajeto que começa na periferia, ao centro do próprio labirinto, ou ponto de contato com o eixo vertical por onde se produz a comunicação com os estados superiores e a “saída” definitiva do cosmos, ou seja, dos limites determinados pelo tempo – e seu porvir cíclico – e o espaço.

Junto aos maçons operativos encontramos os sábios alquimistas e astrólogos, perfeitos conhecedores das ciências da natureza aplicadas como símbolos vivos do processo iniciático e regenerador. Eles dotaram a catedral de numerosos símbolos baseados nas correspondências e analogias entre o macro e os microcosmos, o céu e a terra, a divindade e o homem, considerando-se os legítimos herdeiros da ciência sagrada de Hermes Trismegisto. A “pedra bruta” que os maçons poliam e talhavam para a construção, representava, como já dissemos, o mesmo que a “matéria caótica” dos alquimistas: uma imagem da substância plástica indiferenciada na qual estão contidas, em estado não desenvolvido e potencial, todas as possibilidades de manifestação de um mundo ou de um ser. A pedra estava viva, não era simples matéria inerte, e ao mesmo tempo, sua dureza e estabilidade simbolizavam a imutabilidade e firmeza do Espírito. Em tudo isso, um detalhe não deve passar desapercebido: os alquimistas tinham a Santiago, o Mayor, como santo padroeiro, que junto a São João Evangelista (padroeiro dos maçons) e São Pedro (fundador da Igreja), assistiu aos mistérios da Transfiguração de Cristo no Monte Tabor. A partir de então, um “laço” fundamentado em um “Segredo” devia unir, acima das diferenças formais, a todos aqueles que estavam sob a proteção desses santos cristãos, uma mostra do que foram as fraternais relações que se viviam durante as edificações das igrejas–catedrais. Essa fraternidade entre alquimistas e maçons deveria perdurar ainda até o século XVIII.

A liberdade de movimento de que gozavam os franco-maçons, facilitaria os intercâmbios de conhecimentos com outros grêmios de artesãos, dentre os quais se destaca o chamado Companheirismo, que agrupava diversos ofícios (entre eles os entalhadores de pedra e escultores), e que, da mesma forma que os maçons, tinham seus graus e segredos de iniciação.

Dessa forma, esses intercâmbios se deram com as diversas ordens monásticas e cavalheirescas. Não há que se fazer, portanto, um excessivo esforço de imaginação para formar-se uma ideia do clima espiritual que se respirava naquela fecunda e luminosa época. Poder-se-ia dizer, sem temor de exagerar, que ali o saber não tinha fronteiras. E mais: a cordial convivência existente entre as organizações iniciáticas e esotéricas, e aquelas de caráter religioso e exotérico testemunhavam o vigor e a saúde da tradição.

Os cavaleiros templários, esses monges guerreiros que eram também construtores e cujas regras foram inspiradas por São Bernardo, mantinham sob sua proteção numerosas lojas maçônicas. E isso não deve passar inadvertido, pois quando esta organização do esoterismo cristão desapareceu como tal em circunstâncias sangrentas (devido a um acordo do sinistro rei francês Felipe, o Belo, com o Papa Clemente V), essas mesmas lojas, sobretudo as da Inglaterra e Escócia, acolheram em seu seio muitos dos templários sobreviventes, que traziam consigo certos conhecimentos iniciáticos de sua Ordem que acabariam por integrar-se definitivamente na estrutura simbólica e ritual da Maçonaria. Digamos que dentre essas lojas merece destaque a Grande Loja Real de Edimburgo, fundada pelo rei Robert Bruce, que se opôs à extinção da Ordem do Templo combatendo ao lado dos templários.

É significativo que o ano de constituição da Ordem Real da Escócia seja o de 1314 (ano em que se extinguiu a Ordem dos Templários), e que esta teve como Loja Mãe a Ordem Heredom de Kilwinning, cujos alguns dos rituais eram de inspiração templária. E esta palavra, heredom, significa “herança”, que é a mesma recebida pelos templários. Não existem documentos escritos que atestem a realidade dessa herança simbólica, ainda que seja evidente que ela aconteceu. Por tratar-se de transferências sagradas estas têm lugar primeiramente no plano estritamente espiritual e metafísico, concretizando-se no âmbito humano por mediação de individualidades (pouco importa, neste caso, que sejam conhecidas ou anônimas) que as realizam de maneira efetiva.

Um fio sutil e luminoso une o mundo superior ao inferior, e o inferior ao superior, e a manutenção dessa comunicação é uma das principais funções que sempre tiveram as organizações tradicionais e iniciáticas. Recordemos, neste sentido, que a palavra “tradição” procede do latim tradere, que significa “transmitir” (e por extensão, herança), e transmissão de uma verdade, voltamos a repetir, que remonta às próprias origens da humanidade, e que todas as civilizações consideraram como a fonte de seu saber e cultura. Essencialmente, os templários transmitiram à Maçonaria a ideia da edificação do templo espiritual “que não é feito por mãos de homem” segundo a mensagem evangélica. Tal ideia ficou materializada com a criação de certos altos graus, complementares ao mestrado, de procedência templária.

Um dos mais notáveis, por sua riqueza simbólica, é o grau de Royal Arch do Rito Inglês de Emulação. A Ordem do Temple (ou do Templo), em seu núcleo mais interno era de essência johannica (da mesma forma que a Maçonaria), pois se inspirava nos mistérios contidos no Evangelho e no Apocalipse de São João. Dessa forma, os “Cavaleiros de Cristo” tinham como uma de suas principais missões a proteção do Santo Sepulcro e a manutenção das relações com a “Terra Santa”, ou seja, com o “Centro Supremo” ou “Centro do Mundo”. Com o desaparecimento do Templo, a Maçonaria tradicional (e aqui enfatizamos o “tradicional”), do mesmo modo que a Ordem hermética da Rosa–Cruz, continuaria mantendo para o Ocidente os vínculos com essa “Terra Santa”, também chamada em outras culturas de “Terra dos Imortais” ou “Terra dos Bem-aventurados”.

Durante o Renascimento encontramos a mesma ausência de documentos escritos sobre as relações que o hermetismo cristão e alquímico manteve com a Maçonaria. Graças à recuperação da filosofia platônica, impulsionada na Itália por Marsilio Ficino e Pico da Mirándola, se assiste, nessa época, a um novo ressurgimento da tradição e do saber hermético, onde há que se incluir a Magia Natural e a Cabala cristã. Livros como De Harmonia Mundi de Francesco Giorgi, a Cabala Denudata de J. Reuchlin, a Mônada Hieroglífica de John Dee, e a Filosofia Oculta de Cornélio Agripa, entre tantos outros, exerceram uma grande influência nos círculos herméticos de toda a Europa.

Em tudo isso há algo importante a assinalar: devido à fraternidade que se criou no período Medieval entre os agrupamentos herméticos e os grêmios de construtores, era perfeitamente normal que em uma época como o Renascimento – onde o suporte de uma civilização tradicional estava já bastante debilitado – esses vínculos se fortaleceram com o fim de salvaguardar os valores da tradição e da doutrina.

Chegamos assim à primeira metade do século XVII, onde assistimos ao surgimento do movimento hermético-cristão ao qual se convencionou chamar de “iluminismo rosa-cruz”. Esse movimento, que concedia uma importância especial à invocação dos nomes divinos hebreus e cristãos, assim como às analogias e correspondências entre os três mundos ou planos da manifestação universal-corporal, anímico e espiritual – viria a ser decisivo para a gestação da Maçonaria especulativa. Os rosacrucianos, dentre os quais se encontravam autênticos homens de conhecimento do porte de Robert Fludd, Michel Maier e Juan Valentín Andreae (autor de As Bodas Químicas de Christian Rosenkreutz), eram, por assim dizer, o braço exterior e visível da enigmática “Ordem da Rosa-Cruz”, da qual tomaram o nome. Esta sociedade hermética era composta por doze membros (número primordial) que permaneceram sempre no mais completo anonimato, justificado pelas condições, cada mais vez mais adversas, provocadas pelo poder exercido de forma autoritária pela maior parte da nobreza e do dogmatismo inquisitorial. Esse “Colégio Invisível da Rosa-Cruz”, como igualmente se denominava, herdou, graças a organizações filo-templárias como a Fede Santa à qual pertenceu Dante, o essencial do simbolismo do Templo.

Durante os primeiros anos do século XVII o movimento rosacruciano estendeu as ideias herméticas por diversos Estados e Principados do Europa central, especialmente na Boemia e no Alto e Baixo Palatinado, fomentando um florescente, mas breve, período no qual se tentou perpetuar a cultura tradicional do Ocidente. Não obstante, tudo ficou truncado quando o movimento rosacruciano foi cruelmente dissolvido – como no caso dos templários – durante a “Guerra dos Trinta Anos”, acontecimento este que supôs que a “Ordem da Rosa-Cruz”, inspiradora desse movimento, desaparecera da Europa buscando refúgio na Ásia6.

Cabe aqui destacar dois pontos: primeiro, o aspecto cruento que tomou a perseguição dos templários e dos rosacrucianos, aspecto esse que foi uma característica bastante frequente no Ocidente durante muito tempo, e que deve ser entendido, antes de mais nada, como a expressão de um gesto verdadeiramente sacrificial estreitamente ligado com os mitos solares, e que o próprio Cristo exemplificou com sua paixão e morte na cruz. Do mesmo modo, toda ação sacrificial sofre uma morte ritual seguida de um renascimento ou ressurreição (o sol repete este ato todo dia quando desaparece no Ocidente e volta a aparecer no Oriente), o que pode ser constatado em diversas histórias, incluindo as que se referem ao destino coletivo de todo um povo e das organizações iniciáticas e tradicionais. Segundo, o desaparecimento dos Rosa-Cruzes ocorreu exatamente 333 anos depois da destruição da Ordem do Templo (1314-1647).

Este número, 333, é um número cíclico, pois a soma de seus dígitos dá nove, que é o símbolo numérico da circunferência, que, por sua vez, simboliza um ciclo completo e fechado. Digamos, neste sentido, que o correto conhecimento da teoria dos ciclos é imprescindível para compreender o desenvolvimento histórico ao qual se circunscreve a vida dos povos e das civilizações, situando esse desenvolvimento em suas justas relações analógicas com os grandes ciclos cósmicos, relações que representam a expressão simbólica de tais ciclos no plano horizontal do mundo. Assim, pois, com a “Guerra dos Trinta Anos” finaliza-se um ciclo e começa outro: precisamente aquele que desembocaria na era de subversão dos valores tradicionais e sagrados que constitui o mundo moderno. De fato, com o desaparecimento dos Rosa-Cruzes acabaria de romper-se o laço que unia o Ocidente ao “Centro Supremo”, ou seja, à Tradição Primordial das origens.

Assim sendo, não obstante também se possa considerar as coisas de outro modo, e atendendo ao que neste sentido diz um autor maçom “… Ásia designa apenas o Oriente, onde está situada desde sempre a Loja do maçom”7. Sendo, desde logo, verdade que o “Colégio Invisível da Rosa-Cruz” se ocultou no Oriente físico, isso de forma nenhuma invalida que também o fizesse no Oriente simbólico e espiritual. Voltamos a repetir que os acontecimentos históricos, como todas as coisas, são sempre simbólicos, manifestando a nível sensível as realidades espirituais. A ordem metafísica e o natural não se negam – pelo contrário, se complementam – coadjuvando desta maneira à realização da harmonia universal, tendo sempre em conta, isso sim, uma preferência hierárquica do primeiro sobre o segundo, sem confundi-los.

Ao finalizar a Guerra dos Trinta Anos, e durante ela, muitos rosacrucianos abandonaram o continente instalando-se na Inglaterra e na Escócia, seguindo o caminho que três séculos antes haviam empreendido os templários, e buscando, como esses, refúgio nas lojas dos “irmãos franco-maçons”. Significa dizer que estas relações tiveram suas consequências no simbolismo e rituais maçônicos, sobretudo em alguns símbolos e ritos onde se vê claramente a inspiração hermética e rosa-cruz. Por aquela época (século XVII) o caráter operativo da Maçonaria praticamente havia desaparecido, e, com ele, a perda das técnicas ritualísticas próprias do ofício de construtor e os conhecimentos simbólicos a elas vinculados, os quais ficaram sob posse de reduzidos grupos maçônicos, que em vista das condições adversas que se estavam apresentando, optaram por passar ao anonimato. Não obstante, achamos que essa perda ficou compensada, em parte, pela influência revitalizadora que a Maçonaria estava recebendo das diversas sociedades herméticas e de algumas das ordens de cavalaria iniciática que perduravam, ou foram-se criando, desde o final do período Medieval. O simbolismo arquitetônico ligado aos mistérios da cosmogonia seguiria vigente, pois constitui a senha de identidade da tradição maçônica; mas, a partir de então, esse simbolismo já só se aplicaria na edificação do templo interior. Quer dizer que havia quase desaparecido a “forma”, mas não o espírito, o núcleo, a essência.

É certo, por outro lado, que a admissão indiscriminada de pessoas que não tinham mínimos conhecimentos sobre o que era verdadeiramente o simbolismo e a iniciação, foi criando, paralelamente, as condições que levaram à gestação de uma Maçonaria privada de sua dimensão espiritual, que é certamente a que a grande maioria de nossos contemporâneos conhece. Assim, durante o século XVIII e princípios do XIX, todas aquelas influências tradicionais recebidas durante anos foram, realmente, decisivas para a estruturação definitiva dos “sistemas” ou Ritos mais importantes da Maçonaria especulativa, entre os quais destacam por seu caráter tradicional, o Rito Escocês Antigo e Aceito, o Rito Escocês Retificado e o Ritual de Emulação.

Este breve trajeto pelo tempo nos permitiu comprovar como a Maçonaria interveio nos feitos mais significativos da história de Ocidente, ajudando a tecer (muitas vezes de forma passiva e receptiva, é verdade, mas assim tinha que ser por razões que nos escapam) a trama sutil da mesma durante os últimos setecentos anos.

Símbolos e Ritos

Como tradição sagrada que é, a riqueza simbólica da Maçonaria promove no homem a busca do conhecimento de si mesmo, além de lhe oferecer os meios e os métodos para chegar a ele, os quais, fundamentalmente, se expressam como uma didática que facilita o despertar da consciência, que restitui a lembrança de sua dimensão universal. Esse ensinamento pode ser classificado em:

  • símbolos visuais e gráficos;
  • símbolos sonoros e vocais; e
  • símbolos gestuais ou ritos.

Entre os primeiros se encontram os de desenho geométrico, cuja diversificação é bem extensa, adequados à Maçonaria que costuma identificar-se com a própria geometria, palavra derivada de Gea (terra) e metrón (medida), ou seja “medida da terra”, o que, consequentemente, se relaciona com o ofício de construtor (e de agrimensor), na medida que este delimita um espaço com o fim de realizar uma obra arquitetônica. Entre os símbolos gráficos e visuais destacaremos o chamado “quadro da Loja” que já é, por si só, uma síntese simbólica da Loja, e que de alguma maneira resume os ensinamentos iniciáticos contidos em cada um dos três primeiros graus maçônicos. Como todo símbolo que se refere às ideias de “enquadramento” ou “marcação”, o quadro da Loja protege uma série de elementos de caráter sagrado destinados à meditação e contemplação. Nisto é semelhante aos mandalas ou yantras das tradições hindu e budista, modelos simbólicos que desenham uma imagem geométrica do universo. São, portanto, verdadeiros suportes de meditação, adequados para gerar no homem uma visão e um conhecimento de sua própria estrutura interior, refletida na estrutura do mundo. Dissemos que cada um dos quadros de Loja resume ou sintetiza o ensinamento do grau ao qual pertence, e isso é correto na medida em que nele se encontram os símbolos visuais e gráficos mais significativos e importantes. Trata-se das próprias ferramentas como o maço e o cinzel, o nível e o prumo, a régua de vinte e quatro polegadas, o compasso e o esquadro. Também achamos o símbolo do Delta, a estrela pentagramática, o Sol e a Lua, a pedra bruta, a pedra cúbica e a pedra cúbica em ponta, o pavimento mosaico, o frontispício do templo com as duas colunas (Jakin e Boaz) destacadas de um e outro lado da porta de entrada da Loja, etc. Trataremos de algum destes símbolos.

Entre o segundo grupo de símbolos, os sonoros e vocais, encontramos as “palavras sagradas” e as “palavras de passe” (todas de origem hebraica e cristã) e as lendas dos distintos graus iniciáticos. As palavras sagradas se relacionam diretamente com o que, na Maçonaria se chama de “busca da Palavra perdida”, que constitui o verdadeiro Nome do Deus inefável, e cuja reconstituição equivale a “reunir o disperso”, quer dizer, harmonizar os distintos elementos do ser na unidade de seu princípio divino ou supra individual. Todas as “palavras sagradas” que se dão do primeiro até o último grau, poderiam ser vistas como uma escala ordenada e hierarquizada que conduz à “Palavra de Vida”, que não é outra senão o verbo interior luminoso e regenerativo propiciador do nascimento espiritual. Nesse sentido, a vocalização das palavras sagradas na Maçonaria recorda, em certos aspectos, as técnicas de vocalização dos mantras, em uso entre as tradições hindu e budista. Como se repetiu em diversas ocasiões, os mantras são sílabas e palavras de poder, geradoras de vibrações sutis que conferem a iluminação iniciática ao transmitir a potência do verbo divino imanente na própria realidade da vida cósmica e humana. As “palavras de passe” estão estreitamente vinculadas às “palavras sagradas”. Como sua própria definição indica, as “palavras de passe” aludem ao simbolismo de passagem ou de trânsito, ou seja, contém uma chave que abre a porta de um espaço e tempo interior sagrado e qualitativo. Devemos dizer que cada uma das palavras e letras das línguas sagradas tem seu próprio valor numérico, e tudo junto, palavras e números, formam a “ciência dos nomes”, em si mesma um código simbólico que expressa as diferentes leituras da realidade nos distintos níveis e planos em que se manifesta. Quanto às lendas dos graus, há que vê-las como uma espécie de história sagrada da Maçonaria que permanentemente restitui a lembrança e a memória do tempo mítico das origens. São relatos exemplares, modelos a seguir pelo iniciado e através dos quais este se identifica com as façanhas e vivências de seus antepassados, reatualizando-as no tempo presente, que desta maneira adquire sua verdadeira qualidade.

E o terceiro grupo de símbolos refere-se, como se disse, aos ritos. E esta palavra, “rito”, é idêntica, fonética e etimologicamente, ao sânscrito rita, que significa ordem. O rito seria, pois, a repetição de um gesto ou ato ordenado. Na realidade o rito iniciático (também religioso) é o próprio símbolo em ação executado conforme uma ideia ou arquétipo, e, por sua vez, o símbolo é a fixação de um rito primordial, tal qual o “gesto” do Grande Arquiteto criando o mundo. Se o trabalho com os símbolos gráficos e geométricos se baseia fundamentalmente na concentração e nos estudos de caráter intelectual, os ritos são uma série de gestos e posturas corporais que “fixam” no plano psicossomático do ser a energia-força que precisamente o símbolo geométrico veicula. Estes gestos rituais maçônicos são semelhantes aos mudras hindus e budistas, que através de certas posturas e gestos manuais descrevem uma linguagem sagrada articulada por uma cadência rítmica que é em si uma “música visual”. Essa mesma relação símbolo-rito se pode estender também aos propriamente sonoros e vocais; tudo isso expressa uma unidade de pensamento e ação que deve encarnar-se na realidade cotidiana e diária, pois obviamente de nada serviria meditar na energia salutar dos símbolos se depois não a levamos à prática de uma maneira ordenada e consciente. Da mesma forma, o rito se realiza e desenvolve tanto no tempo como no espaço; no tempo porque os trabalhos maçônicos se realizam do meio-dia em ponto (zênite solar) até meia-noite em ponto (zênite polar); e no espaço porque tais trabalhos são feitos seguindo a direção dos quatro pontos cardeais, ou seja, do Oriente ao Ocidente e do Meio-dia ao Setentrião. Em tudo isso se reconhece uma estrutura circular e cruciforme que abrange conjuntamente a ordem do macrocosmos e do microcosmos, religados ambos pela recriação de um gesto ou rito comum.

Pois bem, essas três categorias de símbolos maçônicos (que por certo se encontram em todas as tradições) estão ordenadas pela lei qualitativa do número, já que tanto quando se desenha uma figura geométrica, se vocaliza um nome divino, ou se executa um gesto ritual, não se está senão manifestando um ritmo interior que, ao exteriorizar-se e plasmar-se na realidade concreta das coisas, toma necessariamente uma estrutura numérica. A este respeito, disse José de Maistre em seu livro “As Noites de São Petersburgo“:

O Criador nos deu o número, e é pelo número que se manifesta para nós, assim como pelo número o homem se evidencia a seu semelhante; tire o número e tirareis as artes, as ciências, a palavra e, por conseguinte, a inteligência. Devolve-o, e reaparecerão com ele suas duas filhas celestiais, a harmonia e a formosura: o grito se converterá em canto; o estrépito, em música; o salto, em dança; a força se chamará dinâmica, e os traços, figuras.

A Loja, Imagem do Mundo

Em primeiro lugar, prestemos atenção ao sentido etimológico da palavra Loja: ela deriva de Logos, que é o Verbo ou Palavra, que emitida no mundo o resgata das trevas e do caos, criando assim a possibilidade da manifestação e da ordem universal. Igualmente, “Loja”, se não etimologicamente, mas quanto a seu sentido simbólico, é idêntica à palavra sânscrita loka, que quer dizer “mundo”, “lugar” e, por extensão, “cosmos”. Por outro lado, também se dá uma identidade entre Loja, Logos e o grego lyke, que significa “luz”.

Aqui temos, em resumo, o que distingue a Loja maçônica: um espaço iluminado, mas iluminado interiormente graças à influência espiritual transmitida pela iniciação. Daí que a Loja se assemelhe à “caverna iniciática”, termo que se utiliza em diversas tradições para designar o que há de mais central e oculto no cosmos: seu próprio coração. Como a caverna iniciática, ou o athanor hermético, a Loja permanece protegida e a coberto do mundo profano e das “trevas exteriores”, que jamais penetrarão nela porque na realidade se encontra situada em outro plano. Explicando melhor: não se trata de um “lugar” no sentido literal, mas sim da consciência interna onde habita o mistério da alma humana. Evidentemente existe uma Loja concreta e física, que pode estar situada em qualquer rua de qualquer cidade de qualquer nação, e que pode mudar de localização tantas vezes quanto se queira. O importante é que o templo exterior simboliza com imagens mnemônicas e evocadoras nosso próprio espaço e tempo interior. Além das aparências deve penetrar-se no que estas velam e ocultam, pois do que se trata, realmente, é de conhecer o “Templo que não está feito por mãos de homem”, como dissemos anteriormente.

A forma da Loja é a de um quadrado longo ou retângulo, cujo comprimento é o dobro da largura. Tridimensionalmente seria um paralelepípedo, figura geométrica que, para Platão, dava as proporções e relações harmônicas do universo. De fato, na Loja maçônica se dão uma imensidão de correspondências simbólicas que tecem um conjunto perfeitamente tramado onde é possível perceber a harmonia do mundo. Nada neste templo é supérfluo nem foi posto por acaso, e cada símbolo ali presente, cada palavra ou gesto emitido, está refletindo um matiz particular dessa harmonia. Assinalaremos que o desenho da Loja maçônica parte da ideia diretriz marcada pelo “número de ouro” ou “divina proporção”, regra que era utilizada pelos arquitetos medievais. Este número determina, a partir de um ponto central que se expande em um movimento logarítmico, as proporções harmônicas presentes em todos os organismos vivos, quer se trate, por exemplo, da estrutura corporal do homem, de uma flor, do caracol, da estrela do mar ou das espirais galáticas. Para os pitagóricos, o “número de ouro” manifesta a inteligência criadora da Mônada ou Unidade, o Hieros Logos, ou Grande Arquiteto, em sua ação, ou gesto, sobre a matéria caótica, plasmando-se nela as ideias de simetria e ordem, equilíbrio e beleza.

Por tudo isso a Loja maçônica sintetiza a totalidade da vida universal, do cosmos manifestado, até ser como a transfiguração qualitativa deste. É, pois, uma imagem do mundo, uma Imago Mundi, um protótipo dele, reduzido à sua forma essencial. Nesse sentido, poderia aplicar-se à Loja maçônica aquela frase inscrita no templo de Ramsés II: “Este templo é como o céu em cada uma de suas dimensões e proporções”. Por outro lado, a estrutura encompridada da Loja permite seguir o curso diurno do sol, o astro que ilumina a terra partindo do Oriente para o Ocidente, passando pelo Meio-dia ou Sul. Por tudo isso, e ao ser como uma imagem simbólica do universo, a Loja está ordenada pelas direções do espaço, que surgidas simultaneamente pela irradiação de um ponto central (o “Coração do Mundo”) gera um sistema de coordenadas onde o alto, o baixo, o comprido e o largo formam a cruz de três dimensões, outro esquema simbólico do cosmos.

Daí se deriva uma geometria espiritual bem conhecida pelos maçons operativos que, aplicando-a na orientação e disposição dos edifícios sagrados, faziam com que fossem penetrados pelos eflúvios e pelas forças mágicas da natureza e do cosmos. Do espaço íntimo e oculto da gruta ou caverna onde nossos antepassados pré-históricos oficiavam seus ritos e cultos sagrados, passando pela choça ou tenda ritual dos povos nômades e os templos construídos de madeira, até, enfim, os monastérios e catedrais, uma longa cadeia tradicional foi dando testemunho dessa vontade do homem por enquadrar e delimitar determinados espaços “carregando-os” de significado espiritual, de modo que refletissem na terra a própria ordem do céu.

Continuando com a descrição da Loja, observamos que no Oriente se acrescenta o Devir, que no Templo de Jerusalém simbolizava o Sancto-Sanctorum ou “Santo dos Santos”. O Devir tem forma de semicírculo, idêntico ao abside semicircular das igrejas e catedrais cristãs, o mesmo que o mihrab das mesquitas muçulmanas. Tal semicírculo é a projeção no plano horizontal terrestre da cúpula ou abóboda celeste. Todo o espaço restante da Loja, que vai desde a porta de entrada até onde começa o Devir, se denomina Hikal, que era o Sanctum ou “Santo” no Templo de Jerusalém. O Hikal está separado do Devir por três degraus, que aludem aos três graus iniciáticos de aprendiz, companheiro e mestre. Assim, pois, esses três degraus se referem à ideia de elevação gradual e hierarquizada a outros planos ou níveis superiores de realidade. De fato, no “Santo dos Santos” se depositava o que havia de mais sagrado para o povo de Israel: a “Arca da Aliança”, pequeno receptáculo, em si mesmo um modelo do cosmos, que “continha” os eflúvios e bendições emanados da divindade. Da “Arca da Aliança”, como centro simbólico do mundo, espalhavam-se as bendições em todas as direções do espaço, comunicando-as, além dos muros e paredes do templo, para a cidade e o universo inteiro.

No lugar que aproximadamente corresponderia à “Arca da Aliança” está situado o Altar ou Ara, coração da Loja onde incide o eixo vertical que comunica o céu à terra. Também se chama “Altar dos juramentos”, porque sobre ele se realizam os compromissos e “alianças” que o maçom contrai com a organização iniciática. Não em vão, sobre o Altar se encontra a Bíblia, ou Livro da Lei Sagrada, aberta nos versículos do livro dos Reis ou nas Crônicas, nos quais se mencionam a edificação e as medidas exatas do Templo de Jerusalém, ainda que também possa ser aberta no prólogo do Evangelho de São João, que começa com as palavras: “No Princípio era o Verbo…”.

Os versículos do Antigo e do Novo Testamento se referem, pois, à construção do templo material e do templo espiritual, respectivamente; o primeiro como reflexo ou símbolo do segundo, pois existe antes que o próprio mundo, e nele residem eternamente a sabedoria e a inteligência do Sumo Fazedor. Sobre a Bíblia se depositam o compasso e esquadro, os dois emblemas maçônicos por excelência.

Estas são as ferramentas ou utensílios que simbolizam o céu e a terra. Com o compasso se traça o círculo ou circunferência, figura geométrica que em todas as tradições é considerada como uma imagem do céu e do celeste. Com o esquadro se traça o quadrado, ou melhor, a cruz (que se forma pela união de dois esquadros unidos por seus respectivos vértices), inseparáveis da ideia de quaternário; assim: os quatro elementos, os quatro pontos cardeais, as quatro estações, os quatro períodos cíclicos da humanidade, as quatro fases da lua, os quatro períodos da vida humana, etc., isto é, tudo o que está relacionado com a terra e o terrestre.

O compasso como “ciência do céu” e o esquadro como “ciência da terra”, sintetizam os mistérios da cosmogonia, que são também os mistérios do homem compreendidos em sua totalidade. Em uma gravura hermética atribuída a Basílio Valentino aparece a figura do rebis ou andrógino (união das energias contrárias numa só natureza ou substância) com um compasso em sua mão direita e um esquadro na esquerda, simbolizando assim a união do céu e da terra. Esta mesma representação iconográfica aparece em uma gravura chinesa onde se vê a figura andrógina do imperador Fo-Hi e sua irmã Niu-Kua, o que vem a confirmar a universalidade destes dois símbolos.

A união entre o superior e o inferior, entre o céu e a terra, é representada na Maçonaria pela superposição e entrelaçamento do compasso e o esquadro, o primeiro com o vértice para cima e o segundo para baixo, assemelhando-se à “estrela de Davi” ou “selo de Salomão”. Esta complementariedade, que não obstante mantém uma ordem hierárquica, está assinalada pela fórmula hermética de que “… o que está em cima (o macrocosmos) é como o que está em baixo (o microcosmos) e o que está embaixo é como o que está em cima”. Se a Bíblia, como livro sagrado, recolhe a revelação da Palavra, o compasso e o esquadro são as ferramentas que servem para aplicar o conteúdo espiritual dessa revelação na ordem da arquitetura. Bíblia, compasso e esquadro são as “Três Grandes Luzes” da Maçonaria, porque no estudo, na meditação e no uso ritual que delas se faz se vai iluminando a trilha que conduz ao Conhecimento.

Seguindo ainda para o Oriente, sobre a parede do fundo encontramos o Delta luminoso com o Tetragrama ou nome inefável de Deus no centro. Este Delta é um triângulo com o vértice para cima, figura que expressa a realidade dos princípios universais, uma vez que é a primeira estrutura arquetípica que se expressa em todos os planos da manifestação como uma força que cria, outra que conserva e uma terceira que destrói, ou melhor, transforma. Estas três ideias-força surgem da unidade primordial que fica simbolizada no Delta por um só olho que às vezes substitui ao Tetragrama, mas que refere-se ao sentido de presença imutável da deidade no próprio seio da manifestação. Ademais, a manifestação, da sua realidade mais sutil até a mais densa e material, está simbolizada pelas quatro letras que compõe o Tetragrama: IodHeVauHe, correspondendo-se, cada uma delas, com os quatro níveis ou mundos que constituem a existência universal, e que são os mesmos que se encontram na Árvore da Vida cabalística. Neste nome divino fica, então, resumida a obra da criação em seu conjunto, e seu conhecimento se vincula diretamente com a busca da “Palavra Perdida”.

Mas o templo, e neste caso a Loja maçônica, não é só uma estrutura estática – como tampouco o é o universo – mas dinâmica também, podendo ser visualizada como uma roda, imagem da “roda do cosmos” ou Rota Mundi. Isso está expressamente indicado pelas doze colunas ou pilares que cercam o recinto da Loja, e que equivalem aos doze signos zodiacais. Seis destas colunas estão situadas no Setentrião, e seis ao Meio-dia. Diremos que o zodíaco (que quer dizer precisamente “roda da vida”) é como o marco do universo visível, e seu movimento cíclico, unido ao dos planetas e demais constelações, influi na troca alternativa das estações e na manutenção e renovação da vida do cosmos e do homem. Disso se deduz que a Maçonaria não desconhece a antiga ciência da astrologia, que junto a da alquimia revela também os mistérios do céu e da terra.

As colunas Jakin e Boaz se vinculam à simbologia dos dois solstícios e, portanto, com as duas fases ascendente-descendente do ciclo anual. Elas se assemelham, assim, aos dois São João, o Batista e o Evangelista e, em consequência, à “porta dos homens” e à “porta dos deuses”, respectivamente. Estas são as portas zodiacais de Câncer e Capricórnio, que correspondem à entrada do verão e do inverno, isto é, ao descenso e ao ascenso da luz solar. As portas solsticiais cumprem um papel muito importante dentro do processo iniciático, que, não se deve esquecer, reproduz exatamente as etapas do desenvolvimento cosmogônico.

Para os pitagóricos, pela porta de Câncer as almas penetram no “antro das ninfas”, que é o mesmo que a caverna platônica, outra imagem do mundo. Ali se regeneram pelo conhecimento dos “pequenos mistérios”. Pela porta dos deuses estas almas saem do cosmos para participar dos “grandes mistérios”. Ou seja, a alma humana “… entra no mundo por uma porta e sai por outra, e no ínterim – assinado pelo espaço e o tempo – tem a oportunidade de reconhecer-se e escapar dessa condição pela identificação com outros estados do ser universal, que pode vivenciar por meio da consciência individual – semelhante à consciência universal – e que constituem a possibilidade da regeneração particular – e também da universal -, sempre, é claro, tomando como suporte a geração e a criação no espaço e no tempo”8.

Esses dois processos são idênticos aos realizados por Cristo, cujo nascimento, paixão, morte e ressurreição, representam um arquétipo da iniciação. Esse mesmo processo pode ser visto também na mitologia de grande número de heróis e deuses solares, como é o caso de Osíris, Quetzalcóatl, Mitra e do próprio arquiteto Hiram. Com relação à vida de Cristo é interessante assinalar o dado, sem dúvida não casual, de que as iniciais das colunas Boaz e Jakin são também as iniciais de Belém e Jerusalém, as duas cidades que presidem o nascimento e a morte do Salvador, ou seja, o ciclo completo de sua existência humana.

No centro da Loja se estende o “pavimento mosaico”, tapete de quadros brancos e pretos exatamente igual ao tabuleiro de xadrez, cujas origens também são simbólicas como a da maioria dos jogos. O “pavimento mosaico” é, sem dúvida, um símbolo da manifestação que, efetivamente está determinada pela luta e delicado equilíbrio que, entre si, sustentam as energias positivas, masculinas e centrífugas (yang, luminosas) e as energias negativas, femininas e centrípetas (yin, obscuras), expressas também na alternância dos ritmos e ciclos vitais e cósmicos. Neste sentido, é ao redor do pavimento mosaico por onde se efetuam as circunvoluções rituais que os maçons realizam em Loja, seguindo assim uma ordem marcada pelos quatro pontos cardeais, as direções do espaço.

Por último, deve-se mencionar que no próprio meio do pavimento mosaico se dispõe o “quadro da Loja”, que antigamente era desenhado no chão ao começar os trabalhos, e apagado quando os trabalhos eram finalizados. Já dissemos que este quadro é um esquema sintético de todo o templo maçônico, além de constituir um suporte simbólico para a meditação e a concentração. De fato, o quadro da Loja, ao conter em seu interior o desenho dos símbolos mais significativos e importantes, torna-se um veículo da influência espiritual na Maçonaria.

Não é, então, casual que seja precisamente ao redor deste quadro (que é o ponto geométrico mais central do templo maçônico) que tem lugar o rito da “cadeia de união”, na qual se invoca a potência criadora e iluminadora do Grande Arquiteto e, implicitamente, também a de todos os antepassados míticos e históricos que contribuíram na edificação do templo material e espiritual. E esta invocação vertical se realiza mediante a união encadeada e fraterna de todas as forças vivas presentes na Loja, isto é, de todos os “irmãos”, que estabelecem assim uma comunicação sutil entre suas respectivas individualidades, servindo como suporte para a manifestação da influência sagrada.

Cabe mencionar, por último, que ao redor do “pavimento de mosaico” e do “quadro da Loja” se encontram os três pilares da Sabedoria, da Força e da Beleza. Esses pilares também recebem o nome de “três pequenas luzes”, porque sobre cada uma delas arde uma pequena vela; são pois colunas de luz e de fogo, três nomes do Arquiteto diretamente relacionados com a construção do templo e do cosmos.

Mas não queríamos terminar sem oferecer um texto das Leituras do Rito de Emulação que resume belamente tudo o que até aqui dissemos sobre o templo maçônico:

“Permita-me atrair vossa atenção sobre a forma da Loja, a qual é um paralelepípedo cujo o comprimento se estende de Leste a Oeste, a largura do Norte ao Sul e, a altura, da superfície da terra até seu centro, inclusive com tanta altura como os céus. “Uma Loja de maçons se descreve assim para mostrar a universalidade da Ciência e ensinar-nos que a caridade de um maçom não deve conhecer limites além dos da prudência . “Nossas Lojas devem estar orientadas de Leste a Oeste, porque todos os Templos dedicados à adoração divina, como as Lojas dos maçons estão ou devem estar assim orientadas.

“O Universo é o Templo do Deus que servimos. A Sabedoria, a Força e a Beleza sustentam seu Trono como pilares de sua obra, porque sua Sabedoria é infinita, sua Força onipotente e sua Beleza resplandece na ordem e na simetria do conjunto da Criação. Ele estendeu os céus ao infinito, como um vasto dossel; dispôs a terra como uma tarima, coroou seu templo com as estrelas como um diadema e de sua mão irradiam a potência e a glória. O sol e a lua são os mensageiros de sua vontade e toda sua lei é a concórdia [o Amor]”.

 

 

 

Notas:-

1 Aludindo a essa primordialidade, alguns textos maçônicos da Idade Média remontam a Maçonaria às próprias origens da presente humanidade, quando se diz que: “Adão foi o primeiro iniciado maçom e o Paraíso a primeira Grande Loja”. Parafraseando o que a respeito se menciona em alguns rituais ingleses, o simbolismo maçônico existe from immemorial time, ou seja, desde tempos imemoriais…
2 Denys Roman, René Guénon et les destins de la Franc-Maçonnerie.
3 Visita Interiora Terrae, Rectificando Invenies Occultum Lapidem (“Visita o interior da Terra, retificando descobrirás a Pedra oculta”).
4 É interessante comprovar que as raízes dos nomes de Hiram e Hermes, HRM, são idênticas, o que nos leva a supor que existe entre ambos uma mesma função tradicional, ou uma mesma energia espiritual adaptada a duas formas tradicionais ligadas à revelação dos mistérios cosmogônicos.
5 O monoteísmo hebraico se constitui a partir da confluência entre a tradição abraamita surgida da Caldeia (Abraão era oriundo de Ur, na Caldeia) e uma corrente diretamente vinculada com a Tradição Primordial. Na Bíblia esta conjunção está simbolizada pelo encontro acontecido entre Abraão e Melquisedeque, “sacerdote do Altíssimo e rei de Salém” representante dessa corrente primordial.
6 A palavra “sacrifício” procede do latim sacrum facere, um ato ou um fazer sagrado.
7 Jean Tourniac, Vie et perspectives de la Franc-maçonnerie Traditionnelle.
8 Federico González, La Rueda, una imagen simbólica del cosmos.

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