A missão de Purna

Olavo Bilac

Ora Buda, que, em prol da nova fé, levanta

Na Índia antiga o clamor de uma cruzada santa

Contra a religião dos brâmanes, – medita.

 

Imensa, em torno ao sábio, a multidão se agita:

E há nessa multidão, que enche a planície vasta,

Homens de toda a espécie, árias de toda a casta.

Todos os que (a princípio, enchia Brahma o espaço)

Da cabeça, do pé, da coxa ou do antebraço

Do deus vieram à luz para povoar a terra:

– Xátrias, de braço forte armado para a guerra;

Saquias, filhos de reis; leprosos perseguidos

Como cães, como cães de lar em lar corridos;

Os que vivem no mal e os que amam a virtude;

Os ricos de beleza e os pobres de saúde;

Mulheres fortes, mães ou prostitutas, cheio

De tentações o olhar ou de alvo leite o seio;

 

Guardadores de bois; robustos lavradores,

A cujo arado a terra abre em frutos e flores;

Crianças; anciãos; sacerdotes de Brahma;

Párias, sudras servis rastejando na lama;

– Todos acham amor dentro da alma de Buda,

E tudo nesse amor se eterniza e transmuda.

Porque o sábio, envolvendo a tudo, em seu caminho

Na mesma caridade e no mesmo carinho,

Sem distinção promete a toda a raça humana

A bem-aventurança eterna do Nirvana.


Ora, Buda medita.

À maneira do orvalho,

Que, na calma da noite, anda de galho em galho

Dando vida e umidade às árvores crestadas,

– Aos corações sem fé e às almas desgraçadas

Concede o novo credo a esperança do sono:

Mas… as almas que estão, no horrível abandono

Dos desertos, de par com os animais ferozes,

Longe de humano olhar, longe de humanas vozes,

A rolar, a rolar de pecado em pecado?.

 

Ergue-se Buda:

“Purna!”

O discípulo amado

Chega:

“Purna! é mister que a palavra divina

Da água do mar de Omã à água do mar da China,

Longe do Indus natal e das margens do Ganges,

Semeies, através de dardos, e de alfanjes,

E de torturas!”

 

Purna ouve sorrindo, e cala.

No silêncio em que está, um sonho doce o embala.

No profundo clarão do seu olhar profundo

Brilham a ânsia da morte e o desprezo do mundo.

O corpo, que O rigor das privações consome,

Esquelético, nu, comido pela fome,

Treme, quase a cair como um bambu com o vento;

E erra-lhe à flor da boca a luz do firmamento

Presa a um sorriso de anjo.

E ajoelha junto ao Santo:

Beija-lhe o pó dos pés, beija-lhe o pó do manto.

“Filho amado! – diz Buda – essas bárbaras gentes

São grosseiras e vis, são rudes e inclementes;

Se os homens (que, em geral, são maus os homens todos)

Te insultarem a crença, e a cobrirem de apodos,

Que dirás, que farás contra essa gente inculta?”

 

“Mestre! direi que é boa a gente que me insulta,

Pois, podendo ferir-me, apenas me injuria…”

“Filho amado! e se a injúria abandonando, um dia

Um homem te espancar, vendo-te fraco e inerme,

E sem piedade aos pés te pisar, como a um verme?”

 

“Mestre! direi que é bom o homem que me magoa,

Pois, podendo ferir-me, apenas me esbordoa…”

“Filho amado! e se alguém, vendo-te agonizante,

Te furar com um punhal a carne palpitante?”

 

“Mestre! direi que é bom quem minha carne fura,

Pois, podendo matar-me, apenas me tortura…”

“Filho amado! e se, enfim, sedentos de mais sangue,

Te arrancarem ao corpo enfraquecido e exangue

O último alento, o sopro último da existência,

Que dirás, ao morrer, contra tanta inclemência?”

 

“Mestre! direi que é bom quem me livra da vida.

Mestre! direi que adoro a mão boa e querida,

Que, com tão pouca dor, minha carne cansada

Entrega ao sumo bem e à suma paz do Nada!”

 

“Filho amado! – diz Buda – a palavra divina,

Da água do mar de Omã à água do mar da China,

Longe do Indus natal e dos vales do Ganges,

Vai levar, através de dardos e de alfanjes!

Purna! ao fim da Renúncia e ao fim da Caridade

Chegaste, estrangulando a tua humanidade!

Tu, sim! podes partir, apóstolo perfeito,

Que o Nirvana já tens dentro do próprio peito,

E és digno de ir pregar a toda raça humana

A bem-aventurança eterna do Nirvana!”

 

 

Extraído de “As Viagens”

Olavo Bilac (1865-1918)

Estes versos de Olavo Bilac são inspirados no Punnovada Sutta (MN 145), que registra a bela e excelente exortação do Buddha ao monge missionário, confira neste link a tradução do sutta em português.

O Venerável Purna, ou Punna Mantānīputta Thera em Pali e 富楼那 (Phú Lâu Na) em chinês, foi um dos discípulos iluminados de Buddha, ele foi também um importante missionário, tendo sido enviado pelo próprio Iluminado para Sudana para saber mais sobre ele confira este link (inglês) e este outro link (inglês, item 6).

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